De piadas a coleções de memes sobre ansiedade, burnout e depressão, o humor nas redes sociais transforma em riso uma dor que, na realidade, afasta milhares de trabalhadores de suas funções. Dados do Ministério da Previdência Social (MPS), obtidos com exclusividade pela BNews Premium, revelam que mais de 30 mil pessoas receberam licenças médicas por transtornos mentais na Bahia nos últimos quatro anos. O estado lidera o ranking do Nordeste.
Conforme os números compilados pelo MPS, a ansiedade e depressão estão entre as principais enfermidades que mais afastam trabalhadores no estado. Só a primeira foi responsável por mais de 10 mil afastamentos entre 2021 e 2024. No ano passado, a Bahia registrou o cenário mais alarmante, o CID41 — código que corresponde à ansiedade — atingiu mais de 4 mil profissionais em 2024, o que representa 40% de todos os afastamentos por questões relativas à saúde mental últimos quatro anos.
Na série histórica, 2024 aparece como o ano com maior número de afastamentos previdenciários no estado baiano. Em 2021, foram registrados 5.737 casos, e esse total quase triplicou em apenas três anos, alcançando 14.065 licenças médicas por problemas psicológicos no ano passado.
Os dados do Ministério da Previdência também revelam que a Bahia lidera o ranking de afastamentos médicos na região Nordeste, com 34.026 casos. Em seguida, aparecem Ceará (28.753 mil) e Pernambuco (28.550 mil). No total, o Nordeste registrou mais de 127 mil afastamentos por doenças mentais.
Em nível nacional, os números do MPS mostram que somente em 2024 foram registrados 3,5 milhões de afastamentos previdenciários no INSS por motivo de doenças. Desse total, mais de 470 mil estiveram relacionados a questões de saúde mental. Em comparação com 2023, houve um aumento de 68% nos pedidos, passando de 283 mil para 472 mil benefícios concedidos por esse motivo.
À BNews Premium, o gestor regional do Programa Trabalho Seguro do Tribunal Superior do Trabalho (TST) e desembargador do Tribunal Regional do Trabalho da Bahia (TRT-5), Luís Carneiro, destacou quais são as profissões mais associadas ao adoecimento mental dos trabalhadores. Entre elas estão: telemarketing, educação (especialmenteprofessores), saúde (com destaque para a enfermagem), transporte (motoristas de ônibus), segurança pública (policiais e agentes de trânsito) e comunicação (jornalistas).
Nessas áreas, o risco de burnout e outros transtornos é maior devido à pressão constante, ao contato intenso com o público e à sobrecarga de trabalho”, explica o desembargador à reportagem.
“É como se eu não fosse mais útil”
Uma dessas profissionais é Maria — nome fictício para preservar a identidade da pessoa —, de 30 anos, professora da rede estadual. Em entrevista à BNews Premium, ela contou que recebeu diagnóstico psiquiátrico de ansiedade, depressão e burnout, o que levou ao afastamento no ano passado.
Maria, atua na rede estadual há 18 anos e trabalha na área de letras com alunos acima de 15 anos. Há nove meses foi “parar no hospital psiquiátrico” e entrou em licença médica da instituição de ensino.
Eu tive a ansiedade, depois eu tive o burnout e por último foi a depressão e foram as exigências por parte da minha chefia junto aos ambiente de trabalho que contribuíram para esse quadro”.
A professora destaca que, em muitos momentos, principalmente após a pandemia, aumentou consideravelmente a necessidade dos alunos de conversar sobre suas relações interpessoais no intervalo ou após as aulas. Ela relata que chegou a presenciar um aluno tentando tirar a própria vida. Em entrevista à reportagem, ela afirmou ainda que, ao marcar consultas médicas, sofreu assédio por parte da gestão da instituição.
“Durante as aulas, comecei a sentir uma tristeza muito grande, com vontade de chorar, e cheguei a chorar várias vezes na sala. Percebi que a direção da escola não se importava com essas questões, e isso me doía muito. Vi que, enquanto os professores davam o melhor de si, a gestão exigia ainda mais”, lembra a profissional.