Sessão extraordinária foi marcada pelo domínio técnico do presidente Yure Ramon sobre o regimento, denúncias de “falsa urgência” e um alerta que silenciou o plenário quanto ao futuro da gestão municipal
A Câmara Municipal de Barreiras aprovou por unanimidade, com 16 votos, na noite desta quarta-feira (28), a utilização de R$ 11,3 milhões do superávit financeiro para as áreas de Saúde e Assistência Social. Porém, a aprovação foi apenas o desfecho de uma sessão eletrizante, marcada por confrontos diretos, desmentidos públicos e o fim definitivo do “cheque em branco” para o Executivo.
O plenário mostrou um Legislativo altivo, que se recusou a ser mero homologador das decisões do prefeito Otoniel Teixeira.

Yure Ramon aplica xeque-mate técnico, garante o debate livre e reafirma a soberania do plenário, isolando o líder do governo e consolidando o protagonismo do Legislativo
O clima de tensão se instalou já na abertura, quando o vereador Hipólito, líder do governo, tentou calar o plenário. Baseando-se em uma interpretação equivocada do Regimento Interno, sustentou que sessões extraordinárias não permitiriam debates, apenas a votação.
O presidente Yure Ramon, demonstrando total domínio das normas da Casa, aplicou um verdadeiro “xeque-mate” técnico. Ele esclareceu que os artigos citados apenas limitam o “expediente” – leitura de correspondências e temas gerais – mas jamais retira o direito regimental de fala dos vereadores durante a Ordem do Dia.
“Vossa excelência se equivocou. O regimento, em nenhum momento, trata de silenciar o vereador. Se quiser, posso lhe fornecer um exemplar agora mesmo”, rebateu Yure Ramon.
A insistência de Yure Ramon na clareza dos artigos citados, que regem o rito das sessões extraordinárias, deixou Hipólito sem argumentos. O plenário, soberano, garantiu o direito ao debate e à transparência, e isolou o líder do governo.

Delmah Pedra deixa claro: “voto favorável sim, mas sem abrir mão da fiscalização e do interesse público”
A vereadora Delmah Pedra, primeira-secretária, foi a primeira a discursar sobre o mérito dos projetos, dando o tom da nova postura do Legislativo. Em fala firme, desconstruiu a narrativa de que a Câmara estaria “travando” Barreiras.
“Dizer que o orçamento está travado por decisão dos vereadores é mentira. Fizemos um ajuste legal para que alterações relevantes passem por esta Casa. Isso não é entrave, é transparência”, afirmou Delmah.
Ela criticou ainda a estratégia de deixar os projetos para a última hora, criando um clima de falsa urgência, e reforçou o compromisso da Casa com a fiscalização:
“Nosso voto será favorável, mas não abrimos mão da nossa responsabilidade e com o interesse público.”

Para Allan do Allanbick, a exigência de aprovação do orçamento reforça a independência da Câmara e garante que o Executivo não governe sozinho
O relator da Comissão de Orçamento e Finanças, Allan do Allanbick, reforçou o caráter técnico da nova fase da Câmara. Ele explicou que a exigência de aprovação para o uso do superávit é fundamental para o amadurecimento institucional de Barreiras.
“Dar 100% do orçamento ao prefeito é deixar que ele governe sozinho. O que fizemos aqui foi nos colocar à disposição para trabalhar. Agora teremos entendimento completo das ações do Executivo”, declarou o relator.

Novo momento na Câmara: Carmélia da Mata deixa claro que a independência do Legislativo é inegociável e que a Casa não é puxadinho do executivo
Carmélia da Mata proferiu um dos discursos mais contundentes da noite. Exibindo documentos que comprovavam a origem federal dos recursos, denunciou tentativas de intimidação via fake news e “gabinete do ódio”.
“Parem de inventar que estamos atrapalhando o pagamento de servidores. Tenho aqui as emendas: R$ 5,1 milhões para o PMAE (especialistas) e R$ 226 mil para saúde bucal, verbas federais de 2024 e 2025. Não permitiremos desvios dessa finalidade.”
Em frase que ecoou no plenário, decretou o novo status da Casa:
“Estamos vivendo um novo momento. Esta Câmara deixou de ser um puxadinho da prefeitura.”
O vereador João Felipe classificou a sessão como um “ato histórico” e criticou a inversão de prioridades da gestão. Ele destacou os gastos milionários com o Carnaval, enquanto clínicas e laboratórios seguem sem pagamento desde outubro de 2025.
“Votamos a favor pela responsabilidade com o povo, mas o gabinete do ódio não nos fará de bobos. A partir de agora, tudo passa pelo crivo desta Casa.”
Yure Ramon, da tribuna, fez um desabafo que paralisou o plenário. Sem citar o nome, ele revelou sofrer perseguição sistemática de um vereador da base governista, a quem atende em seu gabinete, mas que o processa semanalmente.
Yure Ramon dirigiu-se diretamente ao chefe de gabinete do prefeito, Júnior Sampaio, – presente a sessão – com um alerta sombrio:
“A conduta desse vereador em algum momento vai sobrar para a gestão. Vai prejudicar o governo e a população. Estou avisando.”
A declaração, acompanhada de olhar firme, deixou um silêncio ensurdecedor sobre a possibilidade de o Legislativo endurecer ainda mais caso a gestão continue alimentando ataques contra a Mesa Diretora e aos vereadores.
Ao final da sessão, ficou evidente o isolamento do líder do governo, Hipólito. Após tentar manobrar o regimento para calar os colegas e ser tecnicamente repelido por Yure Ramon, optou pelo silêncio, em um gesto que ecoou no plenário.
O recuo confirmou a fragilidade política que o próprio Hipólito já havia admitido em novembro de 2025, na votação das emendas impositivas, quando declarou:
Apesar de obter a autorização para os R$ 11,3 milhões, o prefeito Otoniel Teixeira deixou a sessão ciente de que perdeu o controle absoluto sobre o cofre municipal e que sua articulação política está esfacelada diante de uma Câmara técnica, independente e que agora domina as regras do jogo.