A expansão da cotonicultura brasileira aumentou a responsabilidade sobre uma etapa decisiva para o mercado: a classificação da fibra. Esse foi tema da participação do gerente do Centro de Análise de Fibras da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa), Sérgio Brentano, no último dia do 15º Congresso Brasileiro do Algodão (CBA), nesta quinta-feira (24), em Belo Horizonte (MG).
Brentano participou do workshop “Algodoeiras e laboratórios de qualidade de fibras”, dentro da programação de Qualidade de Fibra, Melhoramento e Fisiologia, ao lado de especialistas de diferentes estados. O encontro discutiu o panorama da qualidade das safras recentes, os desafios enfrentados pelas algodoeiras e laboratórios na safra 2025/2026 e os caminhos para ampliar a valorização da fibra brasileira.
Em sua apresentação, intitulada “Desafios dos laboratórios de classificação instrumental tipo HVI no Brasil”, o gerente da Abapa partiu de uma mudança estrutural: a produção brasileira cresceu em ritmo acelerado e a infraestrutura responsável por medir e qualificar essa fibra precisou acompanhar essa transformação.
Os dados apresentados mostram a dimensão dessa estrutura na safra atual. São 96 instrumentos HVI em funcionamento no país, distribuídos em 14 laboratórios, diante de uma expectativa de produção de 4,082 milhões de toneladas de pluma. O material também registra 19,334 milhões de fardos analisados, evidenciando a escala que chega aos sistemas de classificação.
A questão, segundo Brentano, não está apenas na quantidade de equipamentos. “A classificação instrumental depende de uma estrutura capaz de garantir consistência aos resultados em diferentes laboratórios e ao longo de toda a cadeia. Operar uma máquina de HVI não é apertar botões”, afirmou.
O avanço tecnológico exige profissionais preparados para operar os equipamentos, compreender a fibra, interpretar padrões e trabalhar com dados. Entre os desafios apontados estão a baixa disponibilidade de mão de obra, a alta rotatividade e a necessidade de treinamento constante.
Da fibra medida à confiança comercial
A classificação ganhou importância à medida que o algodão brasileiro ampliou sua presença no mercado internacional. Para Brentano, medir a fibra é apenas uma etapa. O resultado precisa ser confiável o suficiente para sustentar as decisões comerciais. “O laboratório transforma análise em confiança para toda a cadeia. Nesse percurso, a qualidade mensurada passa a ser informação para especificação de lotes, negociação e relacionamento com compradores”, informou.
Esse processo depende de condições rigorosas de análise. Os laboratórios trabalham com ambiente controlado, com temperatura de 21°C, com variação de 1°C, e umidade relativa de 65%, com variação de 2%. O controle envolve ainda micronaire, comprimento, uniformidade, resistência, cor e trash, além de rotina de checagem, manutenção e rastreabilidade dos equipamentos.
Outro ponto destacado foi a própria tecnologia. Os equipamentos HVI estão sujeitos ao desgaste natural dos componentes, necessidade de calibração frequente, diferenças entre instrumentos e influência tanto das condições ambientais quanto da preparação da amostra. Por isso, a expansão da infraestrutura precisa vir acompanhada de uma política permanente de formação e retenção de profissionais.
Fonte: ABAPA